Diagnóstico em Psicanálise
- Marcos Maia
- 16 de jan.
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O que se denomina como saber psi, em sua aplicação no ambiente clínico, é atravessado pela noção de diagnóstico em busca de uma compreensão e manejo do sofrimento psíquico. Portanto, vale lembrar o saber psi não corresponde a um campo homogêneo, mas a uma variedade de perspectivas de conhecimento que abrangem a Medicina, a Psicologia e a Psicanálise, que diferem em seus objetos de estudo em torno dos quais são desenvolvidos seus métodos de pesquisa.
No campo da Medicina, a Psiquiatria estuda os transtornos mentais a partir de seus fatores biológicos, com o funcionamento de substâncias químicas produzidas organicamente, considerando também fatores psicológicos e sociais, dedicando-se à observação do funcionamento do cérebro.
A Psicologia dedica-se ao estudo da subjetividade, incluindo os pensamentos, emoções, percepção e memória, compreendendo as conexões do aparelho psíquico e seus processos mentais, também considerando fatores biopsicossociais, a partir da consciência e/ou, dependendo da abordagem clínica, do comportamento.
A Psicanálise se caracteriza pelo estudo do inconsciente, compreendendo os sistemas de formação das estruturas que determinam o funcionamento do aparelho psíquico repercutindo nos processos de subjetivação. Esses processos implicam na maneira pela qual o sujeito vivencia suas experiências, seus afetos, sua memória e suas relações consigo e com o mundo, constituindo assim, entre outros aspectos, suas formas de desejar e de sofrer.
É importante destacar que cada campo de saber mencionado não invalida o outro. Eles correspondem a perspectivas de conhecimento em torno da complexidade inerente ao ser humano.
Os diagnósticos também não se definem de maneira única para todos os campos de saber. Os diagnósticos sindrômicos caracterizam-se pela observação de sinais e sintomas, frequentemente utilizados na Psiquiatria e na Psicologia, fundamentados com base fenomenológica. No entanto, os diagnósticos estruturais, utilizados em Psicanálise, buscam a compreensão da estrutura clínica (e não a nomeação de uma doença), com a finalidade de compreender o modo de funcionar do sujeito transmitido a partir de seu discurso. O sintoma em Psicanálise refere-se a uma gramática correspondente ao funcionamento do sujeito.
No tratamento psicanalítico, busca-se uma implicação do sujeito com o seu sintoma para que se viabilize uma alteração na forma de lidar com ele. De acordo com o psicanalista Antonio Quinet, em seu livro As 4+1 condições de análise, “o diagnóstico só tem sentido se servir de orientação para a condução da análise”.
As estruturas clínicas são modos de organização do funcionamento do sujeito refletindo em sua relação com o outro, com o desejo e com o sofrimento.
Sigmund Freud se baseou na mitologia grega (Édipo Rei) para ilustrar o desenvolvimento psicossexual do sujeito e seus modos de se relacionar através do Complexo de Édipo, o que é fundamental para a compreensão das estruturas clínicas.
É importante destacar que a sexualidade infantil em Freud é distinta da sexualidade na fase adulta. A infância caracteriza-se por estágios psicossexuais, desde os períodos pré-genitais, marcados pelas zonas de obtenção acentuada de prazer (zonas erógenas), que caracterizam cada uma das fases do desenvolvimento, tais como a oral, em que a criança, ao sugar o leite, não somente o faz por motivo de sobrevivência com a finalidade de consumir o alimento e saciar a fome, mas também por sentir prazer na zona labial com a experiência de sucção no seio materno aconchegado pelo afeto materno; a anal, com a descoberta da função dos esfíncteres e o prazer dessa experiência de controle ao reter e expelir as fezes; a fase fálica, em que a criança descobre prazer na manipulação de seus órgãos genitais, mas ainda sem associá-los às suas funções sexuais exercidas na fase adulta; o período de latência, se caracterizando por um período mais calmo em relação à sexualidade; e a fase genital, que inicia-se durante a puberdade, em que ressurgem os impulsos sexuais da fase fálica, porém com referência no ato sexual característico da fase adulta. Na criança, não há objeto sexual, seu prazer é autoerótico. A sexualidade infantil diz respeito às experiências corporais de prazer e afetividade.
A forma de se relacionar desenvolvida na infância é sublimada, na fase adulta, a outros arranjos que extrapolam o triângulo pai-mãe-filho(a), ou seja, o modo pelo qual o adulto se relaciona é direcionado a outros entes, em outros contextos.
Durante o Complexo de Édipo, o menino, provido do pênis, percebe que a menina não o possui, levando-o a supor que foi arrancado, e então ocorre a ideia de ameaça da castração, que poderia ser executada pelo pai. A representação do pai corresponde à lei (não no sentido jurídico do termo, mas enquanto noção de normas introjetadas pelo sujeito).
A abordagem do desenvolvimento psicossexual corresponde à posição do sujeito na dinâmica da relação familiar, ou seja, como o sujeito atravessa o Complexo de Édipo, o que abrange variações de papéis que podem incidir na orientação sexual ou na identidade de gênero (por exemplo, menino se identificar com a mãe, menina rivalizar com o pai etc.), o que foi abordado por Freud ao longo de sua obra, e arranjos familiares (funções existentes em arranjos distintos da família nuclear). Existe uma diversidade nas possibilidades de uso dos prazeres que irão definir o que se entende como orientação sexual, o que não é determinada exclusivamente pelo sexo anatômico, tampouco pelo arranjo familiar, mas pela maneira pela qual cada um vivencia suas experiências e suas relações com o próprio corpo e com o outro.
Após um desdobramento dos estudos psicanalíticos ulteriores desenvolvidos por outros autores, Jacques Lacan faz um retorno a Freud, fazendo uso de outros elementos, tal como a linguística, na compreensão dos discursos. Em Lacan, no Complexo de Édipo, a castração não se restringe necessariamente ao órgão pênis, assim como o triângulo não está relacionado exclusivamente aos genitores, mas às funções materna e paterna. Quando se fala que a criança está implicada ao desejo do Outro (inicialmente, da mãe) e a ela é atribuída a expectativa de ser o falo materno (“falo” aqui corresponde a um vetor de poder), significa que ela está na posição de ser o que a mãe quer que ela seja (referente à expectativa de que ela se torne o que a mãe espera). Porém, há um desvio da dedicação desse Outro (a mãe) para outras finalidades, o que faz com que o sujeito pressuponha que ele não é o falo da mãe, ou seja, a mãe é desejante, desprovida desse falo (desvio do olhar, desvio da dedicação etc.). Existe um outro lugar que a criança percebe esse falo e para onde a mãe desvia esse olhar. Ocorre então a passagem do “ser” ao “ter”, em que a criança percebe que ela não é o falo, mas ela pode ter o falo. Esse falo estaria então associado à instância paterna, que refreia a dedicação da mãe à criança.
Esse momento marca a entrada do sujeito na lógica do desejo do Outro, onde o sujeito vai se localizar no desejo do Outro. As questões envolvidas são: o que eu sou para o Outro? Se eu não sou o falo, eu posso ter o falo? Se eu não posso ter o falo, quem pode me ceder o falo? Quem pode me ceder isto que faz o movimento do desejo do Outro?
Os modos do sujeito se relacionar caracterização sua estrutura clínica, que são: a neurose, a psicose e a perversão.
Na neurose, ocorre uma negação à castração que não se sustenta, retornando então na forma de um recalque, refletindo na dinâmica de seus sintomas. Na psicose, ocorre uma rejeição dessa castração e, como não há um reconhecimento dessa castração, não há uma representação simbólica desse Outro e o sujeito se torna um joguete dele, que se manifesta para o sujeito a partir dos delírios e das alucinações. Pela falta de representação simbólica do Outro, ele se manifesta (ordenando) pelo campo do Real. Em Lacan, como não ocorre a castração no campo simbólico, ocorre a foraclusão do Nome-do-Pai (le nom du père em francês, que faz uma homofonia com le non du père, que seria “o não do pai” em português). Na perversão, essa castração também é inicialmente reconhecida, mas é desmentida (renegada), retornando através dos fetiches.
Tratando-se de diagnóstico, as estruturas caracterizam os tipos clínicos. Quanto aos tipos clínicos correspondentes à estrutura neurótica, na histeria, o sujeito tem como estrutura do desejo o desejo insatisfeito, em que o sujeito, em relação ao desejo do Outro, reivindica (o que se apresenta sutilmente na clínica através do discurso do sujeito), tratando-se de uma demanda de amor (o sujeito se coloca como objeto do Outro). A partir do Complexo de Édipo, a relação com o falo do Outro, na histeria, varia entre ser o falo e ter o falo, e a reivindicação de ter o falo acomete o Outro de conceder esse falo, dar ao sujeito o que o tornaria menos “problemático” (há na clínica uma queixa velada em que, em geral, a figura materna é o alvo dessas queixas e, além disso, o sujeito histérico tem uma tendência de dar ênfase à castração no campo do Outro através de suas impossibilidades de oferecê-lo o que ele quer. Na transferência com o analista, é comum a pessoa o exaltar e, em outro momento, desqualificar, às vezes até mesmo com hostilizações, sejam implícitas ou explícitas).
Na neurose obsessiva, se tem o desejo impossível, o desejo embarreirado desde o início, pode-se dizer que ocorre uma demanda de amor caracterizada pela “não demanda”. Há um desejo de afirmação à sua identificação ao falo, e assim espera do Outro um não desejo, a paralização do desejo (na dinâmica do obsessivo, se o Outro é desejante, isso implica na sua identificação fálica e isso torna então o sujeito em castrado, é difícil dizer “não”, pois isso enfatizaria a sua impossibilidade, a sua identificação fálica). Há uma característica sintomática na condição do desejo “além do alcance”, ao supor o Outro desejante, que é crucial para o neurótico obsessivo, gerando uma dificuldade de vínculos. Existe um traço de impossibilidade no desejo, mas o que caracteriza o neurótico obsessivo é que ele enfatiza essa impossibilidade. Requer o luto para se recuperar.
É no discurso do sujeito que o tipo clínico emerge, pois, ao partir de uma observação fenomenológica, ao observar uma pessoa que pratica todos aqueles rituais típicos da neurose obsessiva, é possível que essa prática tenha uma função de reivindicação ao outro (histeria), tais como rituais de organização, por exemplo, consistindo que o outro cumpra esses parâmetros para provar a capacidade de corresponder ao amor do sujeito (o ritual implica o outro ou os outros), não se tratando de uma neurose obsessiva. O diagnóstico partindo de uma observação dos sintomas enquanto fenômenos, descritos isoladamente, seria distinto daquele que parte da perspectiva que observa a que esses sintomas estão endereçados, o que sinalizaria uma estrutura.
Quanto à posição do desejo, o neurótico obsessivo apoia-se num desejo impossível. A pessoa histérica cria para si um desejo insatisfeito.
Na psicose, não há a representação do Nome-do-Pai, constituindo a castração do Outro que corresponderia à castração de si mesmo na perspectiva da sua identificação com o falo, não existe a barreira simbólica que promova uma defesa do sujeito em relação aos caprichos do Outro, que faz do sujeito o que quer (Lacan utiliza uma metáfora da mãe jacaré que guarda os filhos na boca. No neurótico, há uma defesa para que essa boca não se feche, mas no psicótico, não há essa defesa e o sujeito se vê sob o risco de que essa boca se feche). O elemento que exerce a função da barreira simbólica na neurose é o recalque, enquanto na perversão é o desmentir (renegar), mas na psicose não existe essa barreira. Nessas situações, ocorrem os surtos psicóticos, pois o sujeito se arranja no mundo através de identificações imaginárias. O delírio ou a alucinação ocorrem como uma tentativa de cura, um preenchimento imaginário que tenta dar conta do furo no simbólico (nas neuroses, a tentativa de cura ocorre no campo do simbólico).
O reconhecimento do sujeito psicótico fora do surto pode ser feito na observação de um característico grau de certeza com relação ao delírio, assim como o sujeito psicótico eventualmente faz do analista o seu próprio testemunho. Se sobra sentido para o sujeito neurótico, falta sentido para o sujeito psicótico.
É necessário então fazer uma leitura da lógica interna dos sintomas entendendo assim a gramática própria da estrutura.
Na perversão, o sujeito se coloca no lugar da lei. Na neurose, o sujeito se vê dividido entre cumprir suas necessidades e ao mesmo tempo não se pôr fora da lei. O perverso nega as restrições da lei se valendo do fetiche, em que ocorre uma objetificação do outro, o impondo um caminho para que o perverso alcance sua satisfação. A problemática do perverso consiste na condição de precisar respeitar os roteiros do seu fetiche, a subordinação do gozo ao fetiche (a pedofilia poderia ser considerada uma perversão, se caracterizando por essa objetificação do outro. Porém, não é possível fazer uma generalização, pois é necessário que se compreenda o percurso do sujeito e se entenda a função do sintoma, não se restringindo a uma observação fenomenológica).
A psicanálise é condicionada a um exercício de memórias da infância?
Uma análise não prescreve uma fala descritiva da infância.
Em psicanálise, a noção de infância corresponde a uma estrutura.
A partir da noção de que o inconsciente se estrutura como uma linguagem, proposta por Lacan, é importante compreender o que o sintoma sinaliza da estrutura do sujeito, ou seja, da sua forma de funcionar. O sintoma em psicanálise corresponde a uma informação do inconsciente. A pergunta a ser feita é: a que esse sintoma vem a esconder desse sujeito?
Na Física, a noção de tempo se caracteriza pelo aumento da entropia - ao quebrar um ovo, ele nunca mais poderá voltar a ser o mesmo. Uma vez submetida a tal ruptura, é impossível que essa matéria retorne ao seu estado anterior em nível de organização molecular. Então, de forma hipotética, suponhamos um sujeito com rígidos hábitos de organização. A compulsão à organização não poderia ser uma manifestação ilusória de resgate das coisas ao seu estado “original”?
Como ilustração em relação a esse sujeito, após retirar um presente lacrado de sua embalagem, ele perderia sua condição inicial. Qual seria a imitação mais próxima do objeto quando novo e embalado? Não seria manter esse objeto limpo e intacto e, ao guardá-lo, tentar organizá-lo na mesma embalagem da maneira mais parecida possível com a forma em que ele estava quando adquirido? Retorná-lo exatamente à mesma forma, como desejado, seria impossível.
Nessa hipótese utilizada como exemplo, se considerarmos a rigidez do hábito de organização como um sintoma, é possível compreender elementos das relações desse sujeito com o outro e com as coisas, sua relação com seus desejos e, sobretudo, com mudanças e perdas, sem a necessidade de um retorno cronológico a acontecimentos do passado.
Conforme foi abordado aqui, sintomas relacionados a compulsões requerem observações que extrapolam amplamente os fatores contidos no exemplo, pois um diagnóstico psicanalítico não é fundamentado a partir de fenômenos, e sim, a que o sintoma é endereçado. Portanto, essa ilustração hipotética mostra como a análise não corresponde a uma suposta regressão cronológica.
Em Psicanálise, parte-se da noção de que todas as pessoas carregam uma estrutura clínica, ou seja, se o sujeito não se constitui na estrutura da psicose ou da perversão, ele se constitui na estrutura da neurose. As estruturas não são doenças, mas indicam o modo de funcionamento do sujeito. Não se busca a desconstrução da estrutura, mas dissolver comprometimentos que interferem em sua vida e que geram sofrimento psíquico.





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