
A psicanálise é condicionada a um exercício de memórias da infância?
Uma análise não prescreve uma fala descritiva da infância.
Em psicanálise, a noção de INFÂNCIA corresponde a uma ESTRUTURA.
De acordo com o psicanalista francês Jacques Lacan, o inconsciente se estrutura como uma linguagem, e assim é importante compreender o que o sintoma sinaliza sobre a forma de funcionar do sujeito.
Na Física, a noção de tempo se caracteriza pelo aumento da entropia - ao quebrar um ovo, ele nunca mais poderá voltar a ser o mesmo. Uma vez submetida a tal ruptura, é impossível que essa matéria retorne ao seu estado anterior em nível de organização molecular.
Então, de forma hipotética e como exemplo, suponhamos um sujeito com rígidos hábitos de organização. A compulsão à organização não poderia ser uma manifestação simbólica de resgate das coisas ao seu estado “original”?
Como ilustração em relação a esse sujeito, após retirar um presente lacrado de sua embalagem, ele perderia sua condição inicial. Qual seria a imitação mais próxima do objeto quando novo e embalado? Não seria manter esse objeto limpo e intacto e, ao guardá-lo, tentar organizá-lo na mesma embalagem da maneira mais parecida possível com a forma em que ele estava quando adquirido? Retorná-lo exatamente à mesma forma, como desejado, seria impossível.
Nessa hipótese utilizada no exemplo, se considerarmos a rigidez do hábito de organização como um sintoma, é possível compreender elementos das relações desse sujeito com o outro e com as coisas, sua relação com seus desejos e, sobretudo, com mudanças e perdas.
Descobrir qual foi o palito de fósforo que causou um incêndio não apagará o incêndio.
Obviamente, sintomas relacionados a compulsões requerem observações que extrapolam amplamente os fatores contidos no exemplo, assim como uma estrutura psíquica não é analisada a partir de fenômenos, e sim, a que o sintoma é endereçado.
Portanto, essa ilustração hipotética mostra como a análise não corresponde a uma suposta regressão cronológica.
