Comercialização de identidades
- Marcos Maia
- 12 de mar. de 2024
- 11 min de leitura
Atualizado: 4 de jun. de 2024
O objetivo deste texto é propor uma reflexão sobre como a subjetividade é produzida na constituição do sujeito, a partir de questionamentos a respeito das manobras características de um discurso de mercado (ainda quando não se apresentam como tal) no sentido de apresentar parâmetros de normalidade e de inclusão na sociedade, segregando sujeitos julgados a não estarem aptos a corresponder a uma utópica existência homogênea.
Vale ressaltar que essas ofertas acontecem na esfera subjetiva através de agenciamentos de enunciação que induzem formas de ser e de viver e influenciam tão profundamente o sujeito, que é capaz de alterar ou produzir seus próprios desejos. Tais enunciados acabam por induzir a percepção sobre o que é necessário ou não, visando o consumo.
Nota-se que há uma potencialização do que se pode denominar como “indústria da felicidade”, sendo possível perceber o surgimento cada vez mais acelerado de diversas soluções para a concepção de um ser humano inabalável e perfeito, que para ser aceito necessita ser esteticamente belo, capaz, que não pode sofrer ou se distinguir da homogeneidade instituída, repercutindo assim em novas formas de sofrimento.
A partir da concepção do ser humano como um ser relacional e que sua vida se desenvolve a partir de suas experiências, incluindo vivências sociais, apresenta-se a seguinte questão: como pensar a respeito de um sujeito que não tenha sua subjetividade sucumbida pelo imperativo da felicidade? Porém, concomitantemente, como esse sujeito pode se apropriar de sua singularidade interagindo integramente com aqueles que optam por outros modos de subjetivação?
O filósofo e psicanalista francês Félix Guattari, em sua obra em parceria com a também psicanalista brasileira Suely Rolnik intitulada “Micropolítica: cartografias do desejo”, afirma essa percepção no nível da subjetividade alertando que “(…) Os afrontamentos sociais não são mais apenas de ordem econômica. Eles se dão também entre as diferentes maneiras pelas quais os indivíduos e grupos entendem viver sua existência”.
Os avanços tecnológicos permitem a utilização de equipamentos de mídia globalizados, como redes sociais, emissoras de televisão e ferramentas publicitárias, que se articulam perpassando pela educação familiar, pelas escolas, por ambientes de trabalho e demais instituições de distintas naturezas inerentes às relações cotidianas, capturando uma ideia de liberdade em função das mutações estabelecidas pelo mercado de tecnologias que prometem a produção de um ser humano perfeito, inabalável, estabelecendo um imperativo da beleza e da felicidade. Portanto, essas mutações ocorrem de forma rápida a ponto de caracterizarem quem não consegue acompanhá-las como incapaz, inapto e impotente.
Podem-se encontrar ainda na atualidade propostas de saberes que partem de uma dicotomia entre o indivíduo e o seu meio social, estabelecendo devires, perfis de personalidade e diagnósticos através de métodos quantitativos com referências num modelo de ciência positivista, trazendo exclusivamente para o sujeito a suposta origem de seus conflitos, de seu sofrimento, psicologizando e/ou patologizando questões ancoradas em parâmetros preestabelecidos de ser humano.
As reflexões aqui propostas não visam a busca de uma habilidade específica a ser adquirida ou aprendida, nem mesmo um caráter reativo aos devires dominantes através de uma postura maniqueísta, mas sim o reconhecimento de uma capacidade inerente ao sujeito, como um ser social que sofre e exerce influências em seu meio através de uma relação dialética, para criação dos seus próprios modos de existência, articulando-se com os demais modos, como também a capacidade de expressão autêntica possibilitando seus processos de singularização.
PRODUÇÃO DE SUBJETIVIDADE
O que é subjetividade? O que seria a produção de subjetividade? Como se articulam os agenciamentos de enunciação?
De acordo com os pesquisadores em Psicologia Social Ana Mercês Bahia Bock, Odair Furtado e Maria de Lourdes Trassi Teixeira, a subjetividade “é o mundo de idéias, significados e emoções construído internamente pelo sujeito a partir de suas relações sociais, de suas vivências e de sua constituição biológica; é, também, fonte de suas manifestações afetivas e comportamentais”.
Portanto, a respeito do que seria tal produção de subjetividade, trata-se de uma espécie de cristalização de supostas verdades e formas de atuação, de ações, de vivências, de percepção de experiências e de formas de pensar do indivíduo abrangendo também uma série de valores instituídos.
Segundo Guattari, a produção de subjetividade “(…) é serializada, normalizada, centralizada em torno de uma imagem, de um consenso subjetivo referido e sobrecodificado por uma lei transcendental (…)”, através da qual, consequentemente, os indivíduos são categorizados sobre o valor correspondente às suas atividades e pode ser considerada a matéria-prima da evolução das forças produtivas em suas formas mais “desenvolvidas” (os setores de ponta da indústria). De acordo com o autor, não “se reduz a modelos de identidade ou a identificações com pólos maternos e paternos. Trata-se de sistemas de conexão direta entre as grandes máquinas produtivas, as grandes máquinas de controle social e as instâncias psíquicas que definem a maneira de perceber o mundo”.
Guattari afirma que a produção de subjetividade não pode ser compreendida restritamente pela concepção de ideologia, mas de uma modelização através de agenciamentos de enunciação que estabelecem uma conexão entre instâncias extrapessoais e instâncias de natureza infrapsíquica.
A partir da mesma concepção de Guattari, Gregório Baremblitt, em “Compêndio de análise institucional e outras correntes: teoria e prática”, denomina a produção de subjetividade como assujeitada quando consiste na reprodução de valores e desejos subordinados aos interesses dominantes, exploradores e mistificantes, que resultam num sujeito modelado, e produção de subjetivação livre quando é singular, não reproduzindo o instituído, equivalente ao que Guattari denomina como processo de singularização, o que, segundo o autor, corresponde à criação do sujeito dos seus próprios modos de existência em articulação com os demais e com as diferenças.
Mercantilização globalizada de identidades e mercantilização da vida
De acordo com a definição de Guattari a respeito de identidade como “(…) um conceito de referenciação, de circunscrição da realidade a quadros de referência, quadros esses que podem ser imaginários (…)”, pode-se observar a articulação de variados agenciamentos de enunciação em escala global induzindo formas ideais de identidade, entendendo a identidade como um dos fatores correspondentes à subjetividade.
A respeito das produções sociais de subjetividade, Suely Rolnik, no II Seminário de Psicologia e Direitos Humanos – Medicalização da Vida promovido pelo CRP-RJ, relatou que atualmente ocorrem implicações coletivas na subjetividade, se estabelecendo uma subjetividade flexível e processual, que supostamente possibilita a capacidade de criação.
Porém, conforme destaca a autora, uma liberdade que, através de identificações quase hipnóticas com imagens publicitárias, é seduzida pela ideia de um mundo onde as pessoas são maravilhosas, nunca afetadas por nenhum tipo de problema e vivem na perfeição. Portanto, essa liberdade oferecida acaba sendo tragada por padrões de mercado.
Nesse cenário se articula uma produção de subjetividade regida por políticas de desejo conduzidas pela lógica mercantil.
Essa conjuntura apresenta uma mercantilização de identidades, expandida num contexto de globalização. De acordo com Rolnik, tal mercantilização consiste numa oferta de kits de perfis-padrão que se estabelecem e variam de acordo com as tendências de mercado para serem consumidas de forma generalizada pelas subjetividades, independente do contexto e características locais de onde sejam propagadas. Essas identidades globalizadas flexíveis tomam o lugar das identidades locais fixas, até então enrijecidas.
Porém, essas mudanças de tendências de identidades ocorrem de forma rápida, provocando uma espécie de pânico em indivíduos que se colocam na necessidade de estarem a elas adequados e “antenados”, diante de novos produtos, de novas tecnologias, paradigmas e hábitos, reconfigurando-se de modo que não fiquem obsoletos, excluídos, evitando o vazio de sentido, aterrorizados pela hipótese de fracasso e despersonificação, propiciando assim o esvaziamento de sua própria subjetividade.
Diante dessa aceleração da vida cotidiana, provocadora também de uma precariedade de tempo, Bauman denomina como “vida líquida” essa vida corrida, instável, em que a incerteza predomina e oferece os temores de ser pego distraído, ultrapassado, de deixar passar datas de vencimento, acumulando utensílios que se tornaram imediatamente inúteis.
As drogas oferecidas pelo mercado não se referem apenas aos produtos farmacêuticos relacionados ao fenômeno de medicalização da vida, prescritos diante da angústia e da série de síndromes também sofridas pelos que estão inseridos nesse contexto simultaneamente às suas agruras e esgotamentos, mas Rolnik também se refere a todo tipo de promessa de vida perfeita, numa espécie de toxicomania generalizada, que além de incluir as drogas propriamente ditas, também abrange as fórmulas de felicidade, fórmulas de mutações corporais e demais produtos que garantam a ilusão de uma identidade inabalável, visando um indivíduo perfeito, porém viciado, um assíduo consumidor, seja da indústria farmacêutica, de tendências alimentares promovidas por tecnologias diet/light promissoras de purificações orgânicas, bem como de outras indústrias relacionadas a padrões estéticos e/ou dependentes de um status oferecido por um modo de identidade previamente idealizado através de mecanismos publicitários em mídias de massa, cinema comercial, literaturas de autoajuda etc.
Contrapondo às identidades globalizadas flexíveis, conforme também cita Rolnik, há também as identidades locais fixas, características de grupos minoritários (étnicos, sexuais, religiosos etc.) ou heranças de regimes totalitários ou características de tradições conservadoras, que reivindicam suas identidades, considerando-se moralmente corretas, rebelando-se contra as formas globalizadas de identidades.
De acordo com Rolnik, a problemática em torno das subjetividades não se encontra exclusivamente na produção de uma identidade local fixa ou de uma identidade global, mas sim no estabelecimento de referências, sejam elas globais ou locais, visando determinar uma identidade padrão. Todas essas referências, embora antagônicas, têm em comum a característica de domesticação.
As relações entre a produção subjetiva e as articulações globais de poder
Os agenciamentos de enunciação se propagam entre diversas instâncias da sociedade decorrentes de uma biopolítica do poder, caracterizando o mecanismo denominado pelo filósofo francês Michel Foucault como “biopoder”. Segundo o autor, anteriormente ao biopoder, no que ele identifica como “sociedade disciplinar”, o poder era exercido pela figura de uma autoridade e era imposto sobre o corpo do indivíduo. Tratava-se de um poder que vinha de fora do indivíduo e que nele se internalizava, se apropriando de suas forças produtivas, transformando-o num corpo dócil, num operário pacato, para que pudesse trabalhar exclusivamente do modo pelo qual o detentor do poder quisesse.
Foucault explica que a partir da segunda metade do século XVIII se estabelece o biopoder, coexistindo e articulando-se com o poder disciplinar. Porém, o biopoder se caracteriza por ser uma tecnologia de poder que não se reduz ao indivíduo, mas visa abranger toda a espécie humana, as grandes massas, ou seja, é um poder global que se estabelece, sobretudo, através da subjetividade.
Sob o pretexto de preservação da vida e manutenção da espécie, é a partir do biopoder que se iniciam processos como o da medicalização da vida, favorecendo desta forma o “aquecimento” do mercado, assim como os processos de higienização legitimando a segregação e eliminação de supostas “raças inferiores”, de indivíduos julgados como ociosos, improdutivos e ameaçadores a uma fictícia harmonia social, como também estabelecendo orientações exclusivas de sexualidade e arranjos familiares, excluindo e até mesmo patologizando aqueles que diferem.
Portanto, o autor destaca uma distinção que demonstra que o poder disciplinar consiste em “fazer morrer e deixar viver”, enquanto o biopoder consiste em “fazer viver e deixar morrer”.
O filósofo Gilles Deleuze também aborda essas articulações de poder mencionadas ao denominar a “sociedade de controle” como uma atualização, evolução, modernização da sociedade disciplinar, porém com tecnologias de controle mais elaboradas, mais arrojadas, invisíveis e estratégicas. Controla-se de forma minuciosa e o indivíduo não sabe que está sendo controlado, não se sente controlado e é até mesmo estimulado a se expor a essas formas de controle. A exemplo disso, é possível observar o hábito que se produziu atualmente de se registrar e tornar público diversos atos do cotidiano e até mesmo da vida íntima. É como se indivíduos estivessem se tornando em paparazzis de si mesmos.
A CONDIÇÃO DO SUJEITO EM SEUS LAÇOS SOCIAIS
É notável que todo regime político estabelecido se estende para muito além de questões de ordem econômica, de um ordenamento jurídico, de instrumentos de segurança pública e de quaisquer elementos formais que o caracterizem. Um regime consequentemente também produz subjetividades, arranjos de relações e fenômenos sociais. Vale considerar, inclusive, que um regime que não produza subjetividade não se sustenta.
O psicanalista Jacques Lacan faz, em seu 17º Seminário, alusão ao Discurso Capitalista, discurso este em que o sujeito é vinculado às demandas produzidas pelo mercado através do desejo para que se torne um consumidor em potencial das mercadorias ofertadas.
Simone Costa, em sua dissertação de mestrado em Psicanálise, Saúde e Sociedade pela Universidade Veiga de Almeida, explica que o Discurso Capitalista “é uma variação do Discurso do Mestre”. De acordo com a autora, considerando que no Discurso do Mestre o sujeito encontra-se numa condição de exploração subordinada ao mestre, no Discurso Capitalista não há laço social e o sujeito se articula através de gadgets, conforme denominação dada por Lacan para as mercadorias que proporcionam o gozo.
Desta forma, observa-se que é produzida uma atribuição de valores a essas mercadorias que manipulam os desejos. Não se diz diretamente do que o sujeito precisa, mas se insere na subjetividade do sujeito o desejo pelas mercadorias e ele próprio passa a considerá-las como demandas e buscá-las. O sujeito que se engana ao observar-se como autônomo. “O capitalismo impõe ao sujeito os imperativos da moda, do consumo e do utilitarismo. (…) Consumos de gadgets que a sociedade inventa e oferece como objetos de desejo, dando a impressão de que ninguém pode ficar sem eles, ou melhor, sem o brilho deles. O mercado se sobrepõe à sociedade com suas leis invisíveis, as quais são na realidade imperativos”.
É possível perceber através de mensagens publicitárias o quanto aos produtos oferecidos é atribuída a condição de fontes de felicidade e de potencializadores de autoestima. Esses produtos denominados gadgets se apresentam sob diversas formas, tais como utensílios, tecnologias, equipamentos de comunicação, até mesmo determinados tipos de serviços e tudo mais que possa ser comercializado. Portanto, no Discurso Capitalista, o vínculo se dá entre o sujeito e as mercadorias que se tornam insaciáveis e que deixam o sujeito predisposto a uma interminável busca.
Observa-se que uma vez que a esses gadgets é atribuída uma condição de fontes de felicidade, consequentemente se idealiza uma busca pela felicidade, implicando no princípio do prazer dirigido por “fórmulas” de suspensão da angústia, do sofrimento e da dor. Estabelece-se a demanda de uma felicidade permanente, incoerente com a natureza humana, o que tende a estimular uma tensa e contínua busca por esses objetos destinados a oferecerem o gozo correspondente a esse confortável estado de felicidade.
Entretanto, Freud, em “O mal-estar da civilização”, afirma que “(…) o que decide o propósito da vida é simplesmente o programa do princípio do prazer. Esse princípio domina o funcionamento do aparelho psíquico desde o início. Não pode haver dúvida sobre sua eficácia, ainda que o seu programa se encontre em desacordo com o mundo inteiro, tanto com o macrocosmo quanto com o microcosmo. Não há possibilidade alguma de ele ser executado; todas as normas do universo são-lhe contrárias. Ficamos inclinados a dizer que a intenção de que o homem seja ‘feliz’ não se acha incluída no plano da ‘Criação’. O que chamamos de felicidade no sentido mais restrito provém da satisfação (de preferência, repentina) de necessidades representadas em alto grau, sendo, por sua natureza, possível apenas como uma manifestação episódica. Quando qualquer situação desejada pelo princípio do prazer se prolonga, ela produz tão-somente um sentimento de contentamento muito tênue. Somos feitos de modo a só podermos derivar prazer intenso de um contraste, e muito pouco de um determinado estado de coisas”.
Com isso, é possível entender como objetos almejados logo perdem a sua utilidade após serem obtidos. Também é possível compreender o ciclo vicioso decorrente da necessidade de consumo à qual o sujeito se submete, em que a vida gira em torno do acúmulo e obtenção dos objetos subjetivamente derivados da felicidade.
Compreende-se então que a produção de subjetividade interfere nas relações sociais a partir do momento em que algumas dessas são intermediadas através de bens materiais e do status proporcionado pela sua obtenção, e não necessariamente pela relação entre um sujeito e o outro, mas pela relação entre sujeito e objeto, sejam essas intermediações correspondentes a relações de trabalho, de amizade e/ou até mesmo afetivas.
Os gadgets, conforme apontou Lacan, produzem desejos de forma inconsciente em grande parte da população, de forma a incentivar ao consumo de forma intensa. Através de um Discurso Capitalista que atua de forma a constituir um sujeito montado, com valores, costumes e necessidades que lhe são produzidos, o sujeito entra numa busca incessante por relações de pertencimento.
Quanto aos processos de subjetivação do sujeito, não se trata aqui de descrever uma forma plena de subjetividade, mas de abordar elementos predominantes tendo em vista os processos de singularização que são variáveis de acordo com as relações estabelecidas por cada um ou cada uma.
Assim, acrescentados por outros elementos e condições inerentes a temas não explorados neste texto, produzem-se novas formas de sofrimento. Formas análogas ou talvez atualizando os frequentes quadros de histeria tratados e estudados por Freud ao fim do século XIX, que incluíam paralisias parciais pelo corpo ou perdas parciais de sentidos, observam-se formas atuais de padecimento que se manifestam também através de sintomas expressados pelo corpo, porém de maneiras distintas.




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