Ansiedade
Atualizado: 20 de jul.
Seria imprudente sinalizar aqui uma causa geral para a ansiedade, tendo em vista que os fatores se diferenciam de pessoa para pessoa, do mínimo ao mais elevado grau, em diferentes contextos e em suas mais diversas manifestações. Vale destacar que a ansiedade é um afeto ao qual ser humano está propenso ao longo de seu cotidiano. Nem todo afeto é confortável, mas não necessariamente corresponde a uma patologia.
Numa sociedade acelerada, como atualmente, observa-se uma tendência mais acentuada ao padecimento em quadros de ansiedade e de depressão. Portanto, quando um afeto é traduzido à representação de sintoma, associada à ideia de transtorno, sujeito a crises, ao se manifestar (seja de forma mais intensa ou não), induz-se a uma expectativa de início de crise, o que intensifica esse afeto, podendo assim produzir o que seria compreendido como uma crise. Trata-se de uma espécie de efeito placebo ao contrário. Por isso, um olhar crítico aos processos de patologização da vida (incômodos entendidos como doenças) é fundamental. Ainda que algumas experiências de ansiedade possam representar um quadro patológico, é importante compreender a que ela está direcionada dentro de seu contexto.
Também vale considerar que a aceleração da vida, o excesso de estímulos (muitos dos quais exigem resposta) e a imposição utilitarista da gestão do tempo incorporam no sujeito, como parte do eu, uma intolerância ao vazio, à não atividade, ao ócio, ao devaneio, e quando ele se encontra numa dessas situações, é possível que a ansiedade se manifeste.
Num aspecto mais profundo, a partir de uma experiência traumática, quando a representação desse trauma é reprimida da consciência, ocorre uma separação do afeto decorrente dessa experiência. Nesse mecanismo, os afetos são deslocados para algo, tal como o corpo, e a representação permanece inconsciente, recalcada.
A falta de acesso a essa representação não é completamente efetiva por provocar assim uma excitação causando aflição e com isso a pessoa vai entrando em estados típicos, como uma sensação de alerta, uma necessidade de antecipar e/ou se prevenir de acontecimentos, entre outras manifestações.
O afeto proveniente encontra um modo de expressão por intermédio de sintomas característicos. Essa expressão pode ocorrer através do corpo, na manifestação de sintomas físicos; ou para ideias substitutivas, gerando sintomas de repetição e sistematização de atos, o que a psiquiatria denomina como TOC (transtorno obsessivo compulsivo), por exemplo, para substituir a representação do trauma; ou pode ocorrer o deslocamento do afeto para o mundo com a paranoia; ou esse deslocamento pode ser direcionando para um objeto terceiro, no caso das fobias, entre outros.
Esse recalque da representação vai causando efeitos que decorrem em sofrimento, tais como episódios de medo relacionado a determinados elementos, como se algo trágico estivesse por acontecer.
Entre os possíveis meios pelos quais a ansiedade pode se manifestar como sintoma, vale considerar também a relação desse modo de funcionamento com o desejo, como algo irredutível à necessidade e à demanda.
A necessidade pode ser exemplificada pelo aspecto fisiológico, como sentir fome, sentir sede e daí por diante; a demanda corresponde ao que alguém requer para satisfazer a necessidade, às associações em torno da satisfação da necessidade. Por exemplo, quando uma criança sente fome, ela requer o alimento, junto com carinho, acolhimento e todo esse contexto que extrapola o ato de saciar a fome. Porém, mesmo quando a demanda é atendida em seu contexto (acolhimento, carinho, alimento), ainda falta algo, a partir do qual emerge o desejo.
O sintoma aqui pode ter uma função de tentativa de reconhecimento do desejo, direcionado a um objeto que possa vir a encarnar a causa do desejo e, consequentemente, manifestado diante de elementos que funcionem como suportes desse objeto. De acordo com o psicanalista francês Jacques Lacan, “substituímos por um alguém o ninguém a quem o sintoma é dirigido, na medida em que ele está no caminho do reconhecimento do desejo”, portanto, o sujeito não terá seu desejo satisfeito ao possuir o objeto, pois o gozo decorre da própria insistência do desejo e da repetição do circuito pulsional que o sustenta. Dessa relação entre sintoma e desejo, pode se manifestar, inclusive, a ansiedade.
As possibilidades de causas de ansiedade não se esgotam aqui, pois devem ser levados em consideração os estados vivenciados ao longo da história de uma pessoa e suas relações com as experiências decorrentes. Logo, a ansiedade pode se manifestar diante de diversas circunstâncias, em diversas formas.
Fazendo uma analogia àquele incômodo parcial que ocorre em situações cotidianas quando queremos dizer algo, mas nos esquecemos da palavra que gostaríamos de usar, pode-se considerar que os sintomas de ansiedade seriam equivalentes às metáforas que podemos utilizar para substituir o uso dessa palavra esquecida. Seriam como um sentido figurado substituindo a palavra esquecida que gostaríamos de usar numa conversa, como uma palavra utilizada para substituir aquela que estava “na ponta da língua”, mas que foi esquecida.
Um quadro severo de ansiedade pode ser entendido como uma forma de linguagem não verbal para expressar uma experiência cujo sentido foi "esquecido", linguagem esta que pode automaticamente passar a "servir" como resposta também para outras experiências.



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